Passou da meia-noite e a casa inteira dorme. Na sala, o monitor acende com aquela luz azulada que deixa todo mundo com cara de fantasma. Alguém de pijama, falando baixo como se o computador pudesse acordar os outros, confere se o telefone está livre, ajeita a cadeira e clica em "Conectar".
Começa o som.
Primeiro vem a discagem, uma sequência de tons que parece música de caixinha com defeito. Depois, um apito agudo, um chiado de estática, um guincho que sobe e desce, como se uma máquina de fax tivesse se apaixonado e não soubesse lidar com isso. Você sabe a ordem de cor. Sabe até onde vem a pausa dramática, aquele instante em que tudo pode dar errado.
O que rolava ali era uma conversa. O modem da sua casa e o do provedor combinavam em áudio como falar um com o outro, e a gente ouvia a negociação inteira, sem legenda. Quando o chiado cortava de uma vez e vinha o silêncio, era vitória. Alguém sussurrava "foi", e às vezes saía até um soquinho no ar.
Mas nem sempre ia. No provedor IG, por exemplo, a tentativa raramente era uma só. Dava ocupado, discava de novo. Caía no meio do chiado, discava de novo. A madrugada tinha esse ritmo: o dedo no mouse, o ouvido atento e a paciência de quem sabe que meio Brasil está acordado tentando a mesma coisa, na mesma linha, no mesmo minuto.
E a hora não era escolhida à toa. Depois da meia-noite, a conta contava só um pulso telefônico, e no domingo a vantagem valia também. Então a vida se arrumava em volta disso. Muita gente aprendeu a ser noturna por economia, não por vocação. A olheira do dia seguinte era o preço de não ver a conta explodir no fim do mês.
A internet daquele tempo tinha ainda um problema de moradia: ela morava dentro do telefone. A linha era a mesma para tudo, então quem navegava ocupava a casa inteira. Tinha casa em que a briga pelo aparelho começava logo depois do jantar e só terminava em tratado: um tempinho agora, o resto mais tarde, e nada de internet enquanto a tia não ligasse de volta. A madrugada resolvia boa parte do problema, porque ninguém precisava do telefone àquela hora.
Ainda assim, o risco rondava. Bastava alguém levantar o fone da outra extensão para derrubar a conexão, e o grito que vinha em seguida atravessava parede. "Sai da internet que eu preciso do telefone!" era a frase mais clássica da época, e cabia inteira num corredor.
Aí, com a conexão firme, vinha o prêmio. Para muita gente, a primeira coisa que importava nem era página, era gente. Abrir o mIRC, entrar no canal #brasil e ver as mensagens correndo na tela, nomes esquisitos, apelidos, um "alguém de SP?" perdido no meio. Conversar com desconhecidos, de verdade, em tempo real, sem ninguém na sala saber com quem. Parecia ter descoberto uma praça que só abria de madrugada.
E a praça tinha relógio. Cada minuto de papo pendurado na linha entrava na conta, então a conversa rendia com um olho no assunto e outro no horário. Dava para ficar até o sono ganhar, mas sempre com aquela vozinha lembrando que o telefone estava pulsando ali atrás.
Quando o assunto era imagem, a espera tinha paisagem própria. A foto aparecia de cima para baixo, uma faixa de cada vez. Primeiro um pedaço de céu, depois o começo de uma cabeça, e o resto da tela cinza. A gente ficava inclinado para a frente, tentando adivinhar o que vinha a seguir, como quem espera a cortina abrir. Podia ser um pôster de filme, uma foto de carro, um papel de parede. Valia a noite.
Baixar arquivo era outra categoria de paciência. A barra de progresso andava, a estimativa de tempo mudava de ideia a cada instante, e todo mundo se acostumava a ver o relógio correr enquanto o arquivo ficava onde estava. Daí a tragédia clássica: travar quase no fim. O silêncio que vinha depois era diferente do silêncio de quando a conexão pegava. Esse era de luto.
Por isso havia um cuidado coletivo. Quem passava pelo corredor andava na ponta do pé. Valia um acordo tácito: tem alguém conectado, então o resto do mundo fica em pausa.
Até que chegava a conta de telefone. O envelope aparecia no meio da correspondência, e quase ninguém abria na hora. Abria-se com calma, perto da família, e a pergunta saía quase sozinha: "Foi você, né?". A defesa era sempre a mesma: era pesquisa, era só um minutinho. O minutinho tinha virado a madrugada, claro, mas ninguém precisava saber de todos os detalhes.
Hoje a internet está em todo lugar, e ninguém espera silêncio nenhum para saber se conectou. Mas basta ouvir um chiado qualquer, de longe, para o corpo lembrar. Em algum canto da memória, o telefone ainda dá ocupado, e uma tela de bate-papo continua lá, esperando o próximo "oi" aparecer.

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