Naquele tempo

Explicamos: Orkut e MSN Messenger, a vida online antes das redes de hoje

Os dois serviços ensinaram muita gente a ter perfil, comunidade e conversa em tempo real, e dá para comparar o que faziam com o que você usa hoje.

Alexandre Soares5 min de leitura
orkut Orkut e MSN Messenger: Tela de login do Orkut em conceito de redesign, com logo rosa à esquerda e formulário de login sobre fundo rosa e branco
Foto: behance.net

Em 2004, para falar com os amigos da escola você abria o computador, esperava a conexão e entrava em dois lugares: um para deixar recado no mural de alguém, outro para conversar ao vivo. Para boa parte dos brasileiros, esses lugares tinham nomes: Orkut e MSN Messenger.

Entender como eles funcionavam ajuda a ver por que aquele período marcou tanto e o que ainda reconhecemos nos aplicativos de hoje.

O que eram

O Orkut era uma rede social: cada pessoa tinha um perfil, uma lista de amigos e um espaço para recados. Foi lançado discretamente em 22 de janeiro de 2004 por Orkut Büyükkökten, engenheiro de software turco que o desenvolveu enquanto trabalhava no Google. O nome do site é o dele mesmo.

O MSN Messenger era um mensageiro instantâneo, ou seja, um programa para conversar por texto, em tempo real, com as pessoas da sua lista de contatos. A Microsoft lançou a primeira versão em 22 de julho de 1999. Em 2005, o produto passou a atuar sob a marca Windows Live, mas o nome antigo continuou em uso comum.

Uma comparação ajuda: o Orkut era a praça da cidade, onde qualquer um passava e via o que estava pendurado no seu mural. O MSN era a conversa de calçada, entre poucas pessoas, naquele momento.

Como funcionavam na prática

No Orkut, o recado deixado no perfil de alguém se chamava scrap, e era visível para todos. Além dos scraps, havia fotos, comunidades e a lista de amigos. Era possível virar fã de um amigo e avaliá-lo como confiável, legal e sexy, numa escala de 1 a 3 marcada por ícones. Qualquer membro também podia incluir outro na sua Crush List. Jogos, enquetes em comunidades e temas coloridos completavam o pacote, e os temas só estavam disponíveis no Brasil e na Índia.

orkut Orkut e MSN Messenger: Tela de computador antigo exibindo o Orkut com um depoimento de amiga em balão rosa e botões Publicar e Rejeitar
Foto: techtudo.com.br

A privacidade mudou com o tempo. No começo, qualquer pessoa podia visitar qualquer perfil, a não ser que estivesse na lista de ignorados do dono. Depois, o usuário ganhou a opção de mostrar o perfil a todas as redes ou só a algumas. Os scraps também passaram a aceitar HTML, o que permitiu postar vídeos e imagens nos recados.

O MSN começou simples, com mensagens de texto e uma lista de contatos básica. A versão 6.0, de julho de 2003, trouxe emoticons, avatares personalizados e planos de fundo. A 7.0, de abril de 2005, acrescentou os winks, animações para mandar na conversa. A 7.5, de agosto de 2005, permitia gravar um recado de voz de até 15 segundos, segurando a tecla F2.

E havia o botão de atenção, talvez o gesto mais lembrado do programa. Você apertava, e a janela de conversa do outro lado tremia na tela, acompanhada de um som. Servia para chamar quem tinha sumido no meio do papo, e também para encher a paciência de quem fingia não ver a mensagem. Era uma cutucada digital, sem precisar escrever nada.

O que ficou de herança

As comunidades do Orkut reuniam gente em torno de assuntos específicos. Em vez de só falar com quem já conhecia, você podia procurar uma turma pelo interesse, por mais particular que fosse.

No Brasil, isso virou quase um esporte. Além das comunidades sobre time, banda, escola e cidade, havia as de humor: grupos criados só para brincar com situações do dia a dia, manias, bordões e coincidências que todo mundo reconhecia. Entrar numa delas era uma forma de dizer "isso acontece comigo também", e o nome da comunidade muitas vezes já era a piada. Os memes de hoje cumprem um papel parecido.

No MSN, a conversa acontecia com os contatos que você mantinha na lista, e avatar, fundo e emoticons davam cara própria ao bate-papo.

Orkut e MSN Messenger: Captura de tela de janela de conversa de chat com menu de opções aberto destacado em laranja
Foto: techtudo.com.br

Não dá para afirmar que um app atual descenda diretamente de um desses serviços, mas as semelhanças são claras. Grupos temáticos de hoje lembram as comunidades do Orkut. A caixa de atualizações que o Orkut ganhou em setembro de 2007, com novidades de perfil, fotos e vídeos dos amigos em tempo real, lembra o fluxo de novidades que chega até você nos aplicativos atuais, em vez de exigir que você visite cada página. E os emoticons do MSN têm parentesco com os símbolos que enfeitam suas conversas hoje.

O Brasil teve papel grande nessa história. O Orkut foi um dos sites mais visitados do Brasil e da Índia em 2008, e naquele ano o Google anunciou que o serviço seria administrado no país, pela operação brasileira, em Belo Horizonte. A decisão levou em conta a grande base de usuários brasileiros e o crescimento de questões jurídicas.

O fim de cada um

O Google anunciou em 30 de junho de 2014 que fecharia o Orkut em 30 de setembro daquele ano. Novas contas deixaram de ser criadas a partir de julho, e os usuários puderam baixar o arquivo do próprio perfil pelo Google Takeout.

Por que o Orkut acabou? Não há uma causa única comprovada, e o que circula são interpretações. Uma delas aponta a queda de uso e a ascensão do Facebook, que surgiu em 2006. Outra soma a privacidade (qualquer um podia ver perfis e dados pessoais), a lentidão depois dos redesenhos, a dificuldade de funcionar bem em aparelhos menores e a atenção do Google voltada ao Google+.

O MSN Messenger foi descontinuado em 2013, com a Microsoft apostando no Skype, que havia adquirido em maio de 2011. Em junho de 2009, o serviço tinha mais de 330 milhões de usuários ativos por mês. Depois da compra, Skype e contas Microsoft passaram a se comunicar, o que permitiu a quem tinha conta no mensageiro falar com contatos do Skype.

Em abril de 2022, o endereço do Orkut foi reativado, mas exibia apenas uma carta do fundador dizendo que algo novo viria.

Fontes: Wikipedia, Wikipedia, People Matters, StartupTalky

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