Análise

Googlebooks chegam com hardware pronto e software ainda em obras

Na primeira semana de testes, apps, bateria e pareamento com o celular mostram que o essencial ainda está sendo ajustado.

Alexandre Soares6 min de leitura
Dell XPS Googlebook: Notebook azul-escuro em mesa de madeira, visto de frente e de lado, com a tela mostrando a loja de aplicativos e o teclado à mostra.
Foto: theverge.com

Os cinco primeiros Googlebooks passaram por uma semana de testes e a conta começou a aparecer. A bateria não entrega as 14 horas prometidas pelo Google quando o teste é mais exigente, e quem usa os aparelhos no dia a dia relata uma rotina de frustrações, decepções e perplexidade com o software.

Para quem pensa em trocar o Chromebook ou o notebook com Windows por um Googlebook, o recado é direto: o hardware chega pronto, mas o software e a promessa de integração com o Android ainda não. Preço e disponibilidade no Brasil ainda não foram informados.

O quadro: máquina boa, sistema cru

O hardware vai de bom a excelente. Nos benchmarks, os Googlebooks seguram a comparação com os melhores notebooks Windows e com os MacBooks, principalmente o Dell XPS Googlebook e o HP Googlebook 14, ambos com Snapdragon X Elite. Mesmo sem impressionar de cair o queixo, estão bem acima dos melhores Chromebooks.

O ponto fraco é o sistema. Parte dos problemas é sistêmica no Android, que não nasceu para mouse, teclado e janelas.

Apps: o acervo que falta e o que sobra

Há dois problemas diferentes aqui. O primeiro é o previsível: não há a suíte Adobe nem o acervo de décadas de programas de Windows e macOS. Photoshop e Lightroom existem em versão móvel, aceitável para edição simples, mas um notebook Windows barato com os apps de desktop de verdade ainda leva vantagem. O Linux também não é a saída que parecia: o Slack para Linux pode ser instalado por uma máquina virtual Debian no Terminal, mas, até agora, isso não se mostrou uma alternativa viável. E o suporte a apps Linux e web é menor do que o do ChromeOS.

O segundo problema é mais incômodo: os apps que existem. A base é o Google Play, onde a qualidade varia muito. Como paliativo, o Google criou cinco rótulos: "Feito para celular", "Melhor no site", "Compatível com desktop", "Otimizado para desktop" e "Feito para desktop". Quem aplica os rótulos é o próprio Google, sem controle dos desenvolvedores, e a Play Store não leva você à versão web dos apps de que ela mesma tenta afastá-lo.

Na prática, os exemplos são irregulares:

  • Telegram: no app Android, a tecla Enter não envia mensagem; a versão web às vezes se comporta mal ou trava.
  • Slack: o app é ruim em qualquer tela que não seja a de um celular, e a versão web não consegue ser instalada como app.
  • Signal: liga-se ao celular sem esforço, mas exige Ctrl+Enter para enviar e não deixa selecionar texto, porque arrastar o mouse rola a tela.
  • Netflix e outros streamings: abrem em tela cheia, no estilo tablet, e o modo janela fica escondido na barra superior. Baixar filmes para viagem funciona.
  • Spotify: vem marcado como "otimizado", mas a interface de celular escala pior do que num dobrável.

Tem mais. Muitos apps não mostram o conteúdo enquanto você redimensiona a janela, o que num laptop parece defeito. YouTube e Mensagens escalam melhor. E, quase sempre, a experiência favorece a tela de toque. A impressão geral é a de um tablet Android fingindo ser notebook.

Bateria: 14 horas com asterisco

O Google promete pelo menos 14 horas. O número vem de um teste leve: brilho mínimo de 100 nits, tema escuro, modo de economia de bateria e Wi-Fi usado apenas para navegar.

HP Googlebook 14: Close-up do teclado e da borda de um notebook Googlebook escuro, com a marca escrita, ao lado da traseira clara de um celular.
Foto: androidauthority.com

O teste de bancada é mais exigente: 150 nits, tema padrão, 120 Hz de taxa de atualização (o padrão de fábrica nos Googlebooks) e 30 sites ao vivo, trocados a cada 30 segundos. O resultado:

  • HP Googlebook 14: 11 horas e 52 minutos
  • Acer e Lenovo: 10 horas e 25 minutos cada
  • Dell XPS Googlebook: pouco menos de 10 horas
  • Asus Googlebook 14: 6 horas e 50 minutos, resultado tão discrepante que pode indicar defeito na unidade

Para comparação, o Dell XPS 13 durou 14 horas e 57 minutos e o MacBook Air M5 de 13 polegadas chegou a 15 horas e 37 minutos. Um Chromebook Plus, testado como Chromebook, com o método usado para esse tipo de aparelho, fez 13 horas e 19 minutos. Rivais duram de 15 a 20 horas.

Há atenuantes. Quase todos os Googlebooks testados têm tela OLED, que gasta mais, e o XPS tem bateria de 52 Wh contra 70 Wh dos demais. O sistema é novo, e a própria metodologia de teste ainda está em ajuste. Uma dica prática: baixar a taxa de atualização para 60 Hz rendeu quase duas horas a mais nos dois modelos em que isso foi testado.

Pareamento: a principal promessa tropeçou

A ligação profunda com o celular Android é a razão de ser do Googlebook, e justamente ela deu problema: houve dificuldade para parear o telefone. Uma correção já está sendo liberada e há confirmação de que funciona, mas pode ser preciso esperar alguns dias para recebê-la. Recursos integrados ao Android também não funcionam com celulares Samsung no lançamento.

O que pesa para quem vai comprar

Um representante do Google disse que trocar o ChromeOS pelo Android permitiria um desenvolvimento muito mais rápido. Por ora, o efeito é o inverso: o sistema herda limitações do ChromeOS, como a impossibilidade de usar o Chrome com contas Google separadas, e ainda soma as do Android. Há também um contraste de preço: o MacBook Air é fácil de achar por US$ 1.099 (cerca de R$ 5.480), menos do que a maioria dos Googlebooks.

A conta é de espera. Atualizações do sistema, correções como a do pareamento e desenvolvedores que adaptem seus apps decidem se o Googlebook vira notebook ou continua tablet com teclado. Para quem compra agora, o risco é bancar um produto ainda em fase de testes.

Um detalhe resume o clima. Escondido no sistema existe o "Glowbar Disco", app que transforma a luz da tampa em show de cores fixas, animações, gradientes ou sincronizadas com a música. Um executivo do Google admite que ele pode ser "difícil demais de achar": é preciso ir em Configurações > Apps, liberar a busca por apps do sistema e procurar o nome, repetindo tudo a cada uso. Um mimo divertido num laptop cujo essencial ainda está sendo ajustado.

Conversões em reais feitas pelo dólar PTAX do Banco Central de 09/10/2026 (US$ 1 = R$ 4,99), apenas como referência: o preço no Brasil pode ser outro.

Fontes: 9to5Google, The Verge, Tom's Guide, Android Authority, 9to5Google

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