A Samsung divulgou em 29 de outubro de 2026 o resultado do terceiro trimestre, e os números contam duas histórias opostas dentro da mesma empresa. De um lado, a companhia teve receita recorde de 195,3 trilhões de wons e lucro operacional de 107,4 trilhões de wons, a primeira empresa de tecnologia do mundo a passar de 100 trilhões de wons de lucro operacional num trimestre. De outro, a área que faz os celulares Galaxy perdeu dinheiro de novo.

O paradoxo da memória

A explicação é a mesma para os dois lados: o preço da memória disparou. A corrida por centros de dados de inteligência artificial fez a demanda por chips de memória explodir, e a divisão de semicondutores da Samsung lucrou 106,5 trilhões de wons no trimestre.

Só que celular também usa memória, e muita. A divisão de celulares e redes teve receita de 37,7 trilhões de wons, alta de 11% sobre o mesmo período do ano passado, mas prejuízo operacional de 0,6 trilhão de wons. Foi o segundo trimestre seguido no vermelho: no anterior, a perda tinha sido de 0,7 trilhão. Segundo a agência sul-coreana Yonhap, o resultado da área de celulares caiu 4,2 trilhões de wons em um ano.

Dados de consultorias ajudam a dimensionar o problema. A TrendForce calcula que o preço da memória DRAM para celulares subiu entre 8% e 13% no terceiro trimestre em relação ao segundo. A IDC estima que o custo de memória para os fabricantes de smartphones aumentou cerca de 350% em um ano.

O que a Samsung disse sobre 2027

Na teleconferência com investidores, Daniel Araujo, vice-presidente executivo da divisão de celulares, previu que os preços altos de memória vão continuar no quarto trimestre e que a pressão de custos seguirá em 2027. A empresa espera vender menos celulares no ano que vem, e a queda deve se concentrar nas faixas de entrada e intermediária, com possibilidade de menos modelos nessas categorias.

A explicação é econômica. Nos aparelhos baratos, a disputa de preço é tão acirrada que fica difícil repassar o aumento do custo para o consumidor. Num topo de linha, o mesmo aumento dilui melhor.

Por isso a estratégia oficial para 2027 é concentrar o portfólio nos modelos premium, com três prioridades: aparelhos topo de linha com experiências diferentes por perfil de cliente, inovação de hardware e de formato, e corte de custos para reduzir perdas. Para o próximo Galaxy S, a Samsung adiantou foco em bateria, desempenho do processador e telas com proteção de privacidade, além de dar a cada modelo uma identidade mais distinta. A empresa também planeja programas de financiamento para o Galaxy S26 e o Galaxy Z Fold 8.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil é um mercado em que o Galaxy A pesa muito. São justamente os aparelhos de entrada e intermediários que a Samsung diz que vão sofrer mais. A empresa não deu números por país nem disse quais modelos podem sair de linha, então não dá para cravar o impacto aqui.

Mas a direção é clara em três pontos:

  1. Preço: se o custo da memória continuar alto, a tendência é de celulares mais caros, ou de aparelhos que mantêm o preço com menos memória ou armazenamento.
  2. Menos opções: com menos modelos baratos no catálogo global, a prateleira brasileira de entrada pode encolher.
  3. Concorrência: o aperto não é exclusivo da Samsung. Todos os fabricantes compram memória no mesmo mercado, e os de entrada, que trabalham com margens menores, são os mais expostos.

O que observar

Para quem pensa em trocar de celular, a Black Friday de 27 de novembro pode ser uma das últimas janelas com estoque fabricado antes da nova rodada de custos. Mas não há garantia de preço menor. Os próximos sinais concretos virão dos lançamentos da linha Galaxy A de 2027, quando será possível comparar preço e ficha com a geração atual.

Divergências: o comunicado oficial da Samsung não fala em "vender menos celulares" nem em "menos modelos baratos"; essas previsões vêm da teleconferência, relatadas pelo Android Authority. O comunicado só fala em melhorar o mix com foco em topo de linha. O MoneyToday cita prejuízo de 0,8 trilhão de wons para toda a área de produtos finais (DX), número diferente dos 0,6 trilhão da divisão de celulares e redes. A frase sobre a Black Friday e a tendência de preços é avaliação da redação, não da Samsung.