O Nokia 3310 escorrega da mão no corredor da escola e bate no piso com um estalo seco. O resto é coreografia: a tampa de trás voa para um lado, a bateria para o outro, e a rodinha de colegas já se prepara para o velório. O dono se agacha, recolhe as peças, encaixa uma na outra, liga. A tela cinza-esverdeada acende, o logotipo aparece, a musiquinha toca. Ele guarda o aparelho no bolso do uniforme como quem acabou de amarrar o cadarço.
Na memória da gente, o 3310 era assim. Caía da carteira, caía da escada, caía do ônibus, e voltava. Tinha fama de indestrutível, e ninguém ia conferir se era verdade, porque a prova estava ali todo dia, no bolso da calça. A bateria entrava na mesma lenda: parecia não acabar nunca. O carregador ficava esquecido na tomada da sala, com o fio enrolado, e só era lembrado quando o tracinho de energia no visor começava a piscar. Mesmo assim, ainda dava para empurrar mais um dia.
O aparelho tinha cara. A luz esverdeada do visor, o teclado de borracha com os números gastos pelo dedão, o barulhinho de cada tecla. O toque padrão tocava em qualquer lugar, na fila do pão, no cinema, no ponto de ônibus, e metade das pessoas conferia o próprio bolso. Foi daí que pegou a mania de compor o toque. Com o aparelho na mão e paciência de sobra, a gente digitava nota por nota, apagava, tentava de novo, até sair algo reconhecível: o tema do desenho favorito, um pedaço da música da novela. Ficava meio torto, mas era só seu. Quando tocava num canto da sala, o dono sabia que era a dele antes de qualquer outro.






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