Naquele tempo

O Nokia 3310 e a cobrinha do recreio

O celular que levava tombo sem drama e o joguinho que engolia o recreio inteiro.

Alexandre Soares4 min de leitura
Nokia 3310: 38 e a palavra Orange, em fundo branco.
Foto: onwardmag.com

O Nokia 3310 escorrega da mão no corredor da escola e bate no piso com um estalo seco. O resto é coreografia: a tampa de trás voa para um lado, a bateria para o outro, e a rodinha de colegas já se prepara para o velório. O dono se agacha, recolhe as peças, encaixa uma na outra, liga. A tela cinza-esverdeada acende, o logotipo aparece, a musiquinha toca. Ele guarda o aparelho no bolso do uniforme como quem acabou de amarrar o cadarço.

Na memória da gente, o 3310 era assim. Caía da carteira, caía da escada, caía do ônibus, e voltava. Tinha fama de indestrutível, e ninguém ia conferir se era verdade, porque a prova estava ali todo dia, no bolso da calça. A bateria entrava na mesma lenda: parecia não acabar nunca. O carregador ficava esquecido na tomada da sala, com o fio enrolado, e só era lembrado quando o tracinho de energia no visor começava a piscar. Mesmo assim, ainda dava para empurrar mais um dia.

O aparelho tinha cara. A luz esverdeada do visor, o teclado de borracha com os números gastos pelo dedão, o barulhinho de cada tecla. O toque padrão tocava em qualquer lugar, na fila do pão, no cinema, no ponto de ônibus, e metade das pessoas conferia o próprio bolso. Foi daí que pegou a mania de compor o toque. Com o aparelho na mão e paciência de sobra, a gente digitava nota por nota, apagava, tentava de novo, até sair algo reconhecível: o tema do desenho favorito, um pedaço da música da novela. Ficava meio torto, mas era só seu. Quando tocava num canto da sala, o dono sabia que era a dele antes de qualquer outro.

Nokia 3310: Celular amarelo visto pela parte de trás, com câmera circular, flash e a marca Nokia no centro da carcaça.
Foto: mercadolivre.com.br

A frente do aparelho saía, e isso virava assunto de escola. A cor combinava com a mochila, ou com o tênis, ou com nada, só com a vontade. Tinha a capa azul do colega que todo mundo queria, a vermelha que alguém trouxe de viagem. Emprestar a frente do aparelho por um dia era gesto de amizade; devolver riscada era motivo de crise diplomática. A negociação acontecia no recreio, em voz baixa, quase de contrabando: amanhã a azul vai para lá, hoje a verde fica aqui.

Mas o recreio mesmo era da cobrinha. O aparelho ficava embaixo da carteira, ou escondido dentro do caderno aberto, e o polegar trabalhava em silêncio. A cobra começava pequena, comendo pontinhos. A cada bocado ficava mais comprida, e o espaço da tela encolhia. A gente passava a fazer curvas de última hora, com o coração na boca, tentando não morder o próprio rabo. O jogo não tinha enredo nem final de verdade. Só a vontade de mais uma.

Nokia 3310: Celular laranja visto pela parte de trás, com câmera circular, flash e a marca Nokia no centro da carcaça.
Foto: mercadolivre.com.br

O dedão cansava, a mão suava, a aula ia passando. Quando a cobra se enrolava em si mesma, o fim vinha de um jeito bobo, e o dedo já corria para recomeçar. Recorde virava moeda de troca: mostrava-se o visor ao colega, que balançava a cabeça, fingia pouco caso e pedia a vez. O professor fingia não ver, e a gente fingia que ele não via. Era um acordo que ninguém precisou escrever.

Hoje o celular dorme na tomada toda noite. Vive de capinha, de película, de seguro, e o vidro que cobre a frente inteira pede cuidado em qualquer piso de corredor. Faz tudo, claro, e a gente carrega esse tudo no bolso com um olho na bateria.

Em alguma gaveta, num armário de casa de família, deve ter um 3310 dormindo entre cabos que não servem mais a nada. Se alguém achar o carregador certo, talvez a tela acenda, cinza-esverdeada, com a cobrinha parada no meio da última partida, esperando o dedão voltar.

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