O monitor de tubo zumbia no canto da sala, perto da estante onde ficava a enciclopédia que ninguém abria. Fim de tarde, a luz azulada do vidro batendo na parede. Depois do chiado do modem discando, a janelinha subia devagar, e então vinha o som: uma porta rangendo. Alguém tinha acabado de entrar. Na lista de contatos, o bonequinho que você esperava desde o almoço passava de cinza para verde.

O coração dava uma disparada pequena, mas séria. E você, claro, fingia estar ocupado com outra coisa.

Antes de falar com qualquer pessoa, porém, tinha a vitrine. O nick era montado com mais capricho do que muita redação de escola: letras alternadas entre maiúsculas e minúsculas, parênteses desenhando asinhas, coraçõezinhos, um "~*" aqui, um "x" ali. Embaixo, uma frase de efeito ou um pedaço de letra de música que dizia tudo sem dizer nada. Quem passava pela lista lia aquilo como quem lê a porta do quarto de alguém.

E ainda havia a música do momento, que aparecia logo abaixo do nome e entregava o que você estava ouvindo. Tinha gente que desligava o recurso quando tocava o hit pop vergonhoso e corria para ligar de novo quando entrava o rock pesado, caso a pessoa de quem gostava fosse roqueira. Depois de uma briga, a trilha mudava: balada triste para pedir as pazes, canção animada para avisar que estava ótimo, obrigado, nem pensava mais no assunto. Todo mundo percebia. Ninguém comentava.

O MSN também ensinou a gente a sumir sem sair do lugar. O "ausente" e, principalmente, o "aparecer offline" viraram rota de fuga. Você enxergava a lista inteira, via quem estava ali, e ninguém via você. Servia para escapar de quem tinha deixado um climão na semana anterior, do colega que só queria a resposta da lição, de quem estava magoado e merecia um tempo.

Tinha o truque inverso, também. Alternar o status de online para offline e de volta fazia aparecer um aviso na tela de todo mundo, inclusive de quem você queria que olhasse. Era um cutucão disfarçado de acaso, e todo mundo achava que ninguém percebia.

Mas, de tudo, o que ficou mais forte na memória foi o botão de chamar atenção. Um clique e a janela do outro lado tremia inteira, de um canto a outro, com um barulho que a casa toda ouvia. A gente mandava quando o amigo sumia no meio da conversa. Mandava de novo quando ele não respondia. E de novo, só para ver a tela sacudir. Do lado de cá, dava risada. Do lado de lá, dava susto, e a reclamação vinha em letras maiúsculas: "PARA COM ISSO!"

O nudge, como se chamava, era um grito sem voz. Servia para cobrar resposta, para dar bom-dia, para dizer "estou aqui" sem escrever uma palavra. Os winks completavam a bagunça, com animações que tomavam a tela e ainda faziam som, o que deixava qualquer segredo bem menos secreto num cômodo cheio de gente.

O "brb" tinha vida própria. Em tese, significava "já volto". Na prática, podia ser banheiro, podia ser a mãe mandando desligar aquilo, podia ser uma saída educada de conversa que já tinha acabado. Em muita casa, o aviso vinha em forma de grito: "Desliga, que eu estou esperando ligação!" Telefone e internet disputavam a mesma linha, e quando o telefone tocava, a conexão caía. O bonequinho verde virava cinza no meio da frase mais importante do dia.

Aí vinha o suspense, que morava numa linha pequena no rodapé da janela: "fulano está digitando uma mensagem". A frase aparecia, sumia, voltava. Você olhava fixo, sem piscar, imaginando o tamanho do texto que vinha. Esperava um parágrafo e chegava um "kkk". Ou nada chegava, e a gente ficava ali, com o cursor piscando, tentando adivinhar o que tinha sido escrito e apagado do outro lado.

Havia conversas que atravessavam a tarde inteira com uma economia de palavras admirável. "Oi." "Oi." "Tudo bem?" "Tudo." "E você?" Duas horas depois, o assunto mais profundo era o que cada um ia jantar. As carinhas preenchiam o resto: o sorriso, o choro, o :@ de bravo, que todo mundo entendia na hora sem precisar de dicionário.

É por isso que flerte, briga e reconciliação passaram a morar ali. O recado entrava no nick, a indireta vinha na música, e a frase solta no status era, todo mundo sabia, para uma pessoa só. Parecia mais fácil dizer certas coisas escrevendo.

E no meio disso tudo, a vida acontecia. Você passava o dia na escola com a mesma turma e voltava correndo para casa para falar com ela de novo, porque o plano do sábado só se decidia ali. Cinema, festa, casa de alguém: tudo combinado entre um "brb" e outro, com a ressalva de que só valia se ninguém caísse da internet. Pedir o MSN de alguém era um gesto bem menos arriscado do que pedir o telefone, e ainda deixava você espiar o nick e a música da pessoa por semanas antes de ter coragem de dizer qualquer coisa.

Hoje o "online" e o "digitando..." continuam por aí, em outros aplicativos, com outras cores. Falta a porta rangendo avisando que alguém chegou, e falta a tela tremendo na sua frente, pedindo resposta. A gente segue fingindo que não viu a mensagem, que está só dando uma olhada rápida. Só que agora ninguém manda um tremelique para dedurar.