Naquele tempo

Lan house e a conta que corria por hora

O salão barulhento onde uma geração aprendeu a jogar, pesquisar e negociar mais um pouco de tempo com o relógio na tela.

Alexandre Soares5 min de leitura
Lan house anos 2000, cybercafé com computadores de mesa e monitores CRT: Ilustração de lan house à noite com jovens em monitores de tubo, vitrine de salgados e
Foto: reiniciaai.com.br

Fim de tarde, o ventilador de teto girando devagar e a voz do atendente passando por cima do barulho dos cliques: "Sete! O sete está quase no fim!"

Ninguém no salão levanta a cabeça. Quem está no computador 7 sabe que é o 7 e já está fazendo a conta do que dá para render com o tempo que sobrou. Dá para terminar a rodada. Dá para salvar o trabalho. Dá, com sorte, para fingir que não ouviu.

A lan house começava na porta. Tinha vidro com adesivo de jogo, uma baforada de calor de gabinete ligado desde cedo e um caderninho (ou um papel colado no balcão) onde você escrevia o nome para entrar na fila. A máquina boa, a do canto, com o monitor que não tremia, nunca estava livre. Você esperava em pé, de olho no ombro de quem jogava, tentando adivinhar se a pessoa já estava com cara de quem ia levantar.

O cheiro era uma mistura que a gente reconheceria de olhos fechados: salgadinho de pacote, refrigerante de garrafa, poeira quente. Ninguém ligava de teclar com os dedos meio alaranjados. O fone era enorme, com microfone dobrável e uma espuma que já esfarelava. Mesmo assim, colocar o fone era o momento em que o salão sumia e o jogo aparecia.

E aí vinha a parte nova: o tempo tinha preço. Em casa, quando existia computador, ele era da família, e a internet vinha junto com o telefone e a conta do fim do mês. Na lan house, o relógio ficava ali, no canto da tela, e cada minuto que passava era dinheiro saindo do bolso. Dinheiro da mesada, do lanche que ficou para outro dia.

Lan house anos 2000, cybercafé com computadores de mesa e monitores CRT: Rapaz de suéter verde jogando em computador de gabinete com monitor CRT, enquanto outra
Foto: hardforum.com

O jogo, claro, não sabia disso. No Counter-Strike você começava a rodada com uma faca, uma pistola e um dinheirinho para gastar em arma, e quem morria cedo virava espectador até o fim da rodada. Era a pior das esperas: o relógio correndo, a conta subindo e você ali, só olhando.

Mas tinha o outro lado do balcão, e ele também entra nessa história. Tinha gente que não só pagava a hora: era dono do salão. Para quem tocava uma lan house nos anos 2000, a hora boa não era a do movimento, era a da porta fechada. Quando o último cliente ia embora, a rua silenciava, o ventilador continuava girando e os amigos ficavam. Era o madrugadão.

Dali em diante, as máquinas eram deles. Counter-Strike por horas a fio, de novo e de novo, e Diablo 2 até o monitor virar a única luz da sala. Sem atendente gritando o horário, sem fila, sem ninguém olhando por cima do ombro. O relógio da tela, que o dia inteiro mandava em todo mundo, de madrugada ninguém mais consultava.

À tarde, porém, a lógica era outra, e daí nasceu a arte das desculpas. "Só termina essa rodada." "Ainda está carregando." "Está salvando, não pode desligar agora." Quem estava atrás do balcão já tinha ouvido todas e fazia aquela cara de quem vai deixar passar dessa vez. Era para ser só mais um pouquinho, e o pouquinho se esticava.

Lan house anos 2000, cybercafé com computadores de mesa e monitores CRT: Foto antiga de sala com várias pessoas em computadores de mesa com monitores CRT, em am
Foto: hardforum.com

Havia também as pequenas guerras do salão. A briga pela máquina do fundo, a única em que o teclado ainda tinha a tecla W inteira. O mouse com a bolinha suja, que travava na hora do tiro, e o dono dele jurando que era falta de sorte. O vizinho que gritava no microfone sem perceber que a sala inteira ouvia. Tudo era resolvido em voz alta, e mais tarde os dois já estavam jogando no mesmo time.

O trabalho de escola entrava no meio. A pesquisa sobre o tema da semana começava séria, com a janela do navegador aberta e a testa franzida. Depois vinha a impressão, folha por folha. Se alguém passava atrás da cadeira, a janela do jogo, escondida por baixo, subia no mesmo reflexo com que a gente fechava o caderno na aula. Ele sabia, claro. Sempre soube.

Quando chegava o fim da hora, a rodada não tinha terminado. Você enfiava a mão no bolso e contava moeda por moeda, torcendo para o total render mais um pouco. Às vezes rendia. Às vezes você levantava devagar, com o fone ainda no pescoço, e deixava a cadeira para o próximo da lista, que já estava ali em pé fazendo a mesma cara que você tinha feito.

O curioso é que ninguém saía de lá se sentindo pobre. Saía se sentindo adulto. Era a primeira vez que você escolhia onde gastar o próprio dinheiro e arcava com a conta sem pedir nada a ninguém.

Hoje cada um joga em casa, com a conexão e a máquina próprias, e ninguém grita o tempo restante por cima do barulho. É mais confortável, isso ninguém nega. Mas ainda tem quem, ao ouvir um clique de mouse mais alto, olhe de canto de olho para a ponta da tela, procurando o relógio que já não está lá.

Fonte: Wikipédia

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