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O ataque às geladeiras de sangue na França

Em 2 de novembro de 2026, uma tentativa de aquecer geladeiras de plasma a 110 °C na rede EFS foi barrada pelo alarme

Alexandre Soares5 min de leitura
Geladeiras refrigeradas de supermercado com portas de vidro
Foto: Nielsoncaetanosalmeron/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Imagine uma madrugada em um hemocentro. Ninguém está na sala das geladeiras e o equipamento que guarda as bolsas esquenta sem que a equipe esteja ali para ver. Não é roteiro de filme: a França viveu algo parecido em outubro e novembro de 2026, e o caso mostra como a refrigeração conectada pode virar alvo.

O que aconteceu

Na noite de 11 de outubro de 2026, os controladores de refrigeração de centenas de supermercados franceses foram alterados à distância. Em vez de manter o frio, os equipamentos entraram em ciclo contínuo de degelo, com os alimentos ainda dentro. Há relatos de temperaturas de até 50 °C depois de seis horas, e um supermercado na Normandia disse que algumas geladeiras chegaram a 80 °C. Em algumas lojas, o calor derreteu peças do equipamento ou provocou incêndio.

O número de lojas atingidas varia conforme o levantamento: o grupo Les Mousquetaires (Intermarché) falou em cerca de cem das 3.600 lojas da rede, enquanto outras contagens chegam a 700 supermercados no total, entre várias bandeiras. As perdas também aparecem em faixas diferentes: "vários milhões de euros" nas primeiras estimativas do grupamento Intermarché e dezenas de milhões de euros em balanços posteriores do conjunto do setor.

No Intermarché de Grand-Couronne, na Normandia, o ataque começou às 4h44. O sistema de vigilância remota emitiu alertas na manhã seguinte, mas a equipe não estava no local durante a subida da temperatura, e todo o conteúdo das geladeiras foi descartado. O presidente da Coopérative U, Dominique Schelcher, chamou o episódio de "inaceitável" e inédito contra equipamentos essenciais ao abastecimento de alimentos.

Em 2 de novembro de 2026, um ataque semelhante atingiu supermercados em vários países europeus. Desta vez, o alvo incluiu geladeiras de plasma para transfusão da Établissement français du sang (EFS), a rede francesa de sangue. A tentativa era aquecê-las a 110 °C, mas o monitoramento disparou, a equipe interveio e o plasma foi preservado. A Coolworld, fornecedora de refrigeração da EFS, disse que a vulnerabilidade estava em "um componente fornecido por terceiros".

Prédio da Établissement français du sang, a rede francesa de sangue
Foto: Alexandre Prevot/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Digital com efeito físico

O que une os dois episódios é que um comando dado por software teve consequência concreta: comida e plasma estragados por calor. É como alguém que não arromba a porta, mas troca o ajuste do termostato de casa de longe. Ninguém quebrou nada, só mudaram o que a máquina foi mandada a fazer. Nos relatos sobre o caso, a parte descrita é essa, a digital; sabotagem presencial ou corte de energia não aparecem.

Como foi possível

Os controladores envolvidos são da fabricante dinamarquesa Danfoss, e os investigadores identificaram também modelos da Copeland (XWEB e Dixell XWEB). Cada controlador Danfoss tinha um servidor web acessível pela internet pública. Em muitos casos, o login era "admin" e a senha era a data do dia, graças a uma função escondida chamada "código do dia".

A falha já era conhecida. A equipe de pesquisa Team82, da empresa de segurança Claroty, havia encontrado o problema. A Danfoss divulgou as descobertas em 24 de março de 2025 e lançou a versão de software R4.3.1 para os modelos AK-SM800A, que corrigiu as falhas. Quem não atualizou continuou exposto. Os modelos AK-SM800 e AK-SC355 estavam fora de suporte (o primeiro desde maio de 2021, o segundo desde 2016) e não recebiam correções; a Danfoss já recomendava trocá-los.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu mandou a agência francesa de segurança digital, a ANSSI, investigar e coordenar a resposta com outros países europeus. Quem está por trás do ataque ainda é desconhecido, e nenhuma fonte estabelece de modo formal que as falhas corrigidas antes sejam exatamente as exploradas em 12 de outubro.

Por que o sangue exige tanto cuidado

Bolsa de sangue em uso numa doação
Foto: Wikimedia Commons (CC0)

O concentrado de hemácias fica em geladeira específica, entre 2 e 6 °C, e tem validade de 35 a 42 dias. Plaquetas ficam entre 20 e 24 °C, sob agitação contínua, e duram cerca de 5 dias. O plasma fresco congelado fica abaixo de -20 °C e pode ser conservado por até um ano. Sair da faixa pode inutilizar a bolsa, e isso não se vê a olho nu.

Nos hemocentros brasileiros, o controle de temperatura de freezers e geladeiras, a manutenção preventiva e a calibração periódica dos equipamentos já fazem parte dos requisitos de qualidade.

O que checar antes de comprar ou usar

Quem cuida de refrigeração conectada, em hemocentro, laboratório, clínica ou na compra de uma geladeira para vacinas e medicamentos, pode partir do que o caso francês expôs:

  • Suporte e atualização: o fabricante ainda publica correções para o modelo? Equipamento fora de suporte não recebe conserto para falhas novas.
  • Acesso pela internet: o painel precisa mesmo ficar exposto? Senha padrão deve ser trocada na instalação.
  • Alarme que chega a alguém: o aviso de temperatura precisa alcançar uma pessoa de plantão. Em 2 de novembro foi o monitoramento que deu o alerta a tempo; em outubro, os alertas vieram, mas a equipe não estava nas lojas na hora da subida da temperatura.
  • Registro paralelo: um termômetro ou registrador com memória separada permite conferir o que o painel mostra.
  • Terceirizados: quem faz a manutenção do equipamento e como as atualizações são aplicadas.
  • Plano B: para onde vão bolsas, vacinas ou remédios se a refrigeração falhar.

No hemocentro francês, o que separou o susto da perda foi o alarme ter funcionado e haver gente para atender. Nas lojas, em outubro, os alertas chegaram tarde demais para quem já tinha perdido a carga.

Fontes: Wikipedia, Wikipedia, Hemominas, Hemominas

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